quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A vaca


A gorda, nojenta. Uma verruga no nariz, bigode por fazer, cabelo queimado pela chapinha da manhã. Ela dança pela rua balançando suas tetas enormes e as esfregando na cara dos homens baixinhos abotoados até o pescoço que por ali passam. Ela entra no cabeleireiro e começa a morder as unhas enquanto espera a manicure. Faz o pé enquanto lê Caras, tentando se entreter com a vida das estrelas. Ilha de Caras. Ilha das Caras.  Caras lavadas pela blusa da mulher das tetas grandes. Quanta fertilidade! Quanta felicidade! Rebolando seu bundão, ela vai fazer supermercado. Sardinha, picles e tudo o que fede e dá mau hálito. Amostra grátis? Oba! Pega mais cinco e bota na bolsa para comer depois. Talvez um agora. E mais um. Ai chega, tô de dieta. O bundão passa de corredor em corredor, com as tetas avisando na frente. As coxas batendo uma na outra e o suor escorrendo entre as pernas. Que delícia, que mulher. Impaciente, limpando o suor da testa e esperando a fila andar. Pode passar na frente não, mocinha. Eu tava aqui primeiro! Atravessou a rua focada no seu carrinho pequeno que não comporta seu bundão. Ou, pelo menos, tentou atravessar. O taxista estava reclamando da política que é mais importante que a vida de uma gordona nojenta. Nojenta no asfalto ensangüentado [sim, com trema]. Nojenta, fedida, gorda, gostosa. Pena que não conseguiu comer as outras três amostrar grátis.

Um comentário:

  1. me fez lembrar literatura realista e naturalista de séculos atrás...

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